Viver Mais Simples

Cada dia ao seu lado

Imagem: Fernando Brum

Sábado, oito de fevereiro de 2020.
Seus amigos se jogam no mar, seguindo suas cinzas recém-espalhadas. Sinto a vida pulsando neles e você está vivo novamente.

Domingo, 26 de março de 1989. Nosso pai me acorda às seis horas da manhã para avisar que está levando sua mãe para o hospital. Te espero ao som de Pink Floyd, cheia de expectativa e ansiedade por sua chegada.

Entre estes dois dias, você foi uma das partes mais doces de minha vida. Sua presença acordava a vida em mim. Estar com você sempre foi um convite para viver a vida de forma inteira, com todas as cores e emoções.

Como naquele seu último sorriso para mim.
Na conversa generosa onde você disse que deixar de ser meu sócio simplificaria para você, mitigando minha culpa em cuidar deste tipo de coisa enquanto você lutava por sua vida.
Acolhendo de braços abertos o namorado novo, hoje marido.
Preocupado em cuidar de sua mãe, quando papai morreu.
Nas reuniões de trabalho da Argo, nas visitas ao clientes, sonhando junto comigo no escritório da Álvaro Alvim.
Participando do Voe, entre tantas outras maluquices que eu inventava.
Ouvindo meus “briefings” para todas as muitas marcas, Odisseia, Viver Mais Simples, Voe, acreditando nelas comigo.
Na sua formatura, ao som de Maluco Beleza.
Naquela conversa difícil onde falei do meu medo de você se machucar, depois de você ter vomitado na pia da cozinha por conta de uma bebedeira.
Dançando desajeitado, vestido de boneca nos bailes de carnaval.
A cada show do the Sheeps, arrasando na bateria.
Na Inglaterra, fazendo piada do meu acento britânico “você está falando com um ovo na boca”.
Naquela vez em que você acertou a cesta do meio da quadra, no último segundo de jogo.
Na nossa viagem para a Disney, logo antes da primeira montanha-russa.
Dizendo que topava ser pajem no meu casamento, se pudesse ir vestido que nem o James Bond.
Naquela vez em que te levei ao zoológico, caminhando da Tijuca a São Cristovão, ida e volta. Sua mãe se espantou na velocidade com que dormiu ao retornar.
Quando se espremeu no sofá entre eu e o namorado que seria pai de meus filhos, com ciúmes de irmão.
Quando você olhou para um outro namorado da juventude e disse “Larga ela que eu sou o pai dela”.
Quando, aos dois anos, você virou para mim e disse “já posso ir?”, virou as costas e entrou confiante na primeira sala de aula.
Quando saí de casa e você, aos mesmos dois anos, me pediu para eu vir sempre brincar contigo.
Nas inúmeras vezes que te ninei cantando “Hush now baby, baby don´t you cry”…
Na primeira vez que te segurei e meu coração pulou do peito e as lágrimas rolaram ao ponto da tia brincar: “o caçula não dá trabalho, já a mais velha…”.

Você está tatuado na minha alma, no meu coração, na minha vida.
Eu ainda não sei quando vou parar de chorar. Nem sei quando vou me acostumar a não esbarrar com seu sorriso e o indefectível “E aí, Lê?”.
Eu não sei como vai ser. Eu não posso imaginar minha vida sem você.
Só consigo ir a um passo por vez, para atravessar o que já é a maior dor de todas que já senti.
Você é uma de minhas pessoas preferidas.
Você é o melhor de nós.
Você é um presente inesperado que me faz ser uma pessoa melhor.
Eu sei que o tempo cura. Eu acredito que você está num lugar lindo.
Mas nada disso me consola agora.
Vou ver pela décima vez seus amigos entrando na água para se despedir de você.
Meus pés estavam molhados do mesmo mar. Meu rosto molhado das mesmas lágrimas.
Você segue infinito como minha dor e minha saudade.
Eu te amo tanto, Caio.

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