Barragem-tempestade-incêndio-helicóptero
Uma onda tão perto da outra, quase fico sem respirar.
Acolho a dor de feridas, desta vez tão próximas:
Estive em Brumadinho há pouco mais de seis meses.
A funcionária de uma amiga morreu, soterrada por sua própria casa, na Rocinha.
Meu filho é um jovem atleta.
Ricardo Boechat era uma voz familiar no meu cotidiano.
A Cidade. O Estado. O País. Tão longe dos meus sonhos.
Busco coragem no fundo de meus pulmões. E respiro.
Respiro no encontro com outros seres humanos amorosos na resistência.
Respiro ao dar minha modesta ajuda ao morador em situação de rua.
Respiro ao comprar fraldas para o pai de gêmeos.
Respiro ao apoiar projetos de quem se desdobra para embelezar o mundo e o coração dos homens.
Respiro ao dar mais um passo no inventário de meu pai.
Respiro no demorado mergulho no mar.
Respiro ao cozinhar para o irmão em tratamento.
Respiro ao chorar no ombro que me acolhe.
Respiro e ajudo a respirar.
Teimosamente respiro. Minha teimosia vem de longe. Vem da paciência de meu avô, que comprou sua fazenda aos setenta anos. Vem a obstinação de meu pai. Vem da esperança corporificada em meus fihos. Persistência cujo nome é Celso, Alberto, Leonardo, Olivia.
Respiro.
Aprendo a respirar debaixo de água, fogo, lama e fumaça.
E assim, cuidando de me próprio fôlego…
Ofereço-te minha mão.
Se você sente desalento, medo ou outro tipo de sentimento relacionado, conte para mim. Estou pensando em maneiras de contribuir para nossa resiliência coletiva.