Vida, vida, vida.
Palavra que pulsa em mim toda vez que sussurro seu nome.
Até lembrar, dolorosamente, que você está morto.
Um susto por que passo repetidamente, desde o final de janeiro.
É como um pique-esconde desconcertante. Você me espreita nas esquinas do dia. Um e-mail sobre o inventário. Uma foto no celular. Uma mensagem amiga. As palavras “meus sentimentos” causam sobressalto.
É como seu eu andasse distraída e alguém ou algo me recordasse: ele não está mais aqui.
Mas como, não está?
Se todo o tempo eu penso em você. E sinto saudades intermináveis.
Parece até que o amor se quadruplicou agora que não posso mais te abraçar.
Então eu sonho com você pedindo para eu dar meu gato para a outra irmã. Ou reconheço você em cada jovem que cruza meu caminho. E falo de você a cada trabalho e para cada nova pessoa que conheço. E esbarro no rastro imenso que você deixou: seus trabalhos, seus amigos, suas mensagens.
Sua voz dizendo “E aí, Lê” me persegue incansável. E eu chamo meu filho pelo seu nome.
E choro, como choro. E te peço perdão por chorar, pois sei que embora injusto, é preciso dizer adeus.
Escuto as palavras de condolências automaticamente, até aquela que realmente toca meu coração e me faz suspirar.
E choro rio agradeço questiono aceito recuso e choro
Cada dia
Todo dia
Quando papai morreu, era como se eu caminhasse na água. O ar era pesado e espesso.
Com você, parece que carrego uma pedra enorme amarrada no meu peito.
Novamente, a sensação de se difícil avançar. Só que agora, cada passo esgarça um pouco meu coração.
Aos poucos retomo a rotina. O trabalho, as crianças, as miudezas.
Mas a toda hora me assusto com sua ausência. E sinto-me desorganizada.
Já se passaram dois meses, o ano já está no mês de seu aniversário. O dia 26 foi muito difícil.
Lá fora, todos falam de COVID-19. Eu fico em casa, observo ora como arquibancada, ora sem saber como estender a mão, outras, estendendo demais.
O resguardo foi de certa forma um alívio para dar tempo e espaço para tanta dor. Mas me sinto desorientada. Não podia imaginar o quanto sua existência era sol e estrelas me guiando dia e noite.
Tateio desajeitada por bússolas. E ainda tropeço no labirinto do viver sem você. Mesmo grata por você ter partido antes do vírus se espalhar, levando quem tem a imunidade baixa. Como você tinha.
Ás vezes, parece que está tudo bem e é só um dia normal. Até que o caleidoscópio da tristeza gira e a nova imagem é uma agulhada profunda.
Outro dia, vi um a mensagem que dizia: nunca superarmos a perda de alguém, apenas seguimos e ao seguir, vivemos sem ela.
Eu nunca vou superar a sua ausência. Com sorte, pé ante pé, vou viver sem você.
Só não sei quando ou onde.
Agora, hoje, você é tudo o que eu não tenho, tudo o que eu não posso, tudo o que eu perdi.
E este vazio dói para além das palavras, me roubando a coragem e a alegria.
Procuro em vão por palavras para fechar o texto.
Você deixou esta porta aberta para todo o sempre.
Me despeço então assim mesmo, sabendo que a qualquer momento você surgirá novamente. Nas esquinas da vida, nas beiradas do dia, pulsando eternamente vivo dentro de mim.
30 de março. Dois meses.