Estar vivo é ser uma nova realidade a cada novo dia.
O que motiva a caminhada? Quais as alegrias? E os espinhos?
Viver é muito perigoso, diziam Guimarães Rosa e meu pai. Porque é impreciso, diziam Fernando Pessoa e Caetano.
Imprecisão e perigo me assombram de tempos em tempos. Mais agora, que amadureço enquanto aprendo a ser órfã.
Compreendo que a arte de viver é a arte de gerenciar energia.
Nos relacionamentos. Nos pensamentos. Nas tarefas. Onde vou por meu foco? Quem vai me rodear e por quanto tempo estaremos juntos? O que me inspira? O que me drena?
Tudo isso no contexto de um corpo que evolui e envelhece. A interação entre este corpo e o mundo constrói o que é minha vida.
2017 foi um ano de novidades.
O amor que arrebatou o coração e despertou novas vontades, reorganizando o uso do tempo.
A morte que leva consigo certezas e garantias ilusórias, mas ainda assim estruturantes.
Amanheço 2018 mais sóbria. O amor mais de bom tamanho, o luto mais conhecido e suportável.
O ano que passou foi um turbilhão. Bem no final, levantei a cabeça do rodopio célere e tive fôlego para plantar algumas sementes que agora espero brotar, cultivando paciência e fé.
Andei distraída, ausente de muitos lugares, inclusive destas páginas aqui.
Lentamente, retomo o ritmo, resgato a disciplina. Um passo por vez, um texto por semana.
O foco torna-se sustentar a caminhada. Equilibrar os pratos da maternidade, com atenção e diligência. Cuidar do amor mais maduro, construindo pontes para atravessar os abismos de cada um. Arar a terra para que os trabalhos vicejem, num ano de deserto reaprendendo a florir.
Para lidar com tudo isso, reconecto-me. Comigo e meus pulsos de alegria e recolhimento. Nas trocas com queridos e na aprendizagem do silêncio e solitude. Monitorando o estado da alma e do corpo, cuidando do que se faz urgente.
Lentamente, reencontro minha voz e uma sanidade alicerçada em cicatriz e um certo otimismo. Vigiando os excessos, os desvarios, o que me tira do eixo.
A arte de viver é escrita com letras miúdas, sussurros sutis. Uso tudo que construí e até alguns arrependimentos.
A vida segue perigosa e imprecisa, abraço-me comigo, sustentando a coragem e afeto na palma de minhas mãos.